Monday, September 26, 2011

Farinha...

É tão estranha, às vezes, a questão da fé.
Pouco tempo faz, escrevi algo aqui falando da fé cotidiana, de ônibus, trens, e barcos...

Sobre a fé ser um agir, um se colocar, uma atitude.

Um manter-se em movimento? Talvez...

Esses dias me encontrei com uma história, dessas perdidas dentro da bíblia em meio a tantas outras grandes e interessantes.
Uma história pequena que causa, ao menos a mim, um grande estranhamento...

Essa história fala de um profeta e seus aprendizes. Conta que um deles colheu algumas ervas no campo, a pedido do profeta, para fazer uma sopa, em um tempo onde havia uma escassez - "fome sobre a terra".
Por engano, o aprendiz colheu umas ervas venenosas e quando todos se reuniram para comer a sopa, alguém percebeu, e alertou o profeta dizendo que havia "morte na panela".
Então, o tal profeta pegou um monte de farinha e misturou naquele caldo e disse a todos:
 - pronto, podem comer!
E eles comeram, e ninguém morreu.

De toda essa história e dos comentários interessantes que se seguiram a ela no dia em que presenciei sua leitura, a coisa que ficou solta, vagueando, desafiando, causando entranhamento, mobilizando meus pensamentos foi essa palavra, e esse ato desconexo: Farinha...
Farinha?... Jura?! Farinha...?!!

Essa coisa sem sentido, sem quê nem porquê.
Farinha...
Esse ato.

Uma ação, uma atitude.
O Profeta não precisava fazer sentido ou ter sentido, encerrar razão ou cientificidade, nem mesmo entender de culinária ou ervas.
Ele tinha que agir.
Agir em cima de uma convicção.

O resultado não foi consequência do que ele fez, mas que ele fez!!

... Me admira de igual modo a fé de quem comeu.
Talvez a fome facilite acreditar no que pode aplacar a necessidade.

O que me faz estrangeira nessa história é a farinha...

Vou pegar um punhado de farinha e mudar minha história!
Qualquer coisa insignificante, que possa ser vetor de um investimento de fé.
Qualquer coisa vale!
Qualquer oi, qualquer palavra, qualquer ato.
Isto aqui!
E por que não?!!
Contanto que esteja calcado na convicção de que é da ação que surgem os milagres.
Do movimento que captura o sorriso de Deus.
Basta agir.
Confiar.

E Ele tudo fará.


"Não queiras entender para crer; crê para que possas entender.
Se não crês, não entenderás."

Santo Agostinho

Arrivederci.

Monday, September 19, 2011

A Alma...

"Tenha coragem de te servires da tua própria razão!"

Às vezes, me perco entre as muitas linhas teóricas e filosóficas. No mais das vezes, verdadeiramente, acho que tudo é verdade com raríssimas exceções...
E, então, me vejo forçada a concordar com Deleuze, Guattari, Foucault e toda sorte de relativistas, que me fazem, por vezes, achar que a esquizofrênica sou eu...

O estranhamento é sentir que a alma é essa esponja. Absorve tudo e se agita.
Quer um mundo de 'vastas emoções e pensamento imperfeitos'.

A alma não pode ser sem a razão...

Eu não sei o que Kant quis realmente dizer com a frase acima,
mas a razão é conteúdo.
E da onde vem esse conteúdo se não da alma?

Nos sobra o espirito e a experiência.
Tudo isso é conjunto. Nada exclui nada.

Para a psicanálise, temos ainda que enfiar o inconsciente aí em algum lugar, que eu vou marcar nessa cartografia apenas inferida, como sendo em um ponto equidistante entre alma e mundo externo.

E pronto. Ei-nos inteiros.

Sinto-me uma bagunça, no entanto...
E aqui, precisamente, reconheço o trabalho da minha alma, ela desconjuntura, argui, mexe e remexe os conteúdos, questiona decisões...
Mas não é má a alma, ela não faz isso por implicância ou desafio, não faz isso pra te "testar"!...
A alma simplesmente faz isso.
Talvez a alma seja como uma criança que brinca com tudo que chega às suas mãos, levá à boca, joga no chão, ri, bate nos outros... A alma quer descobrir...

Cabe a outra instância dar o limite, o contorno, o amparo.

E, talvez, aqui a frase do Kant nos sirva: Tenha coragem de te servires da tua própria razão!

É fato que isso vai variar enormemente de pessoa pra pessoa
(como mudou e muda na filosofia até os dias de hoje - A razão kantiana não foi a razão para tantos outros...).
Mas em um âmbito amplo e ao mesmo tempo singular,
o que anda te dizendo a tua razão frente à desarrumação provocada pela tua alma?

No conjunto de tudo o que sou, reunindo todas as instâncias que pude reconhecer aqui-agora, e descrever nesse momentinho singular de reflexão,

digo à minha alma:
"Porque estás abatida ó minha alma? Porque te perturbas dentro de mim?
Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu."
(Sl 43)
"Bendize, ó minha alma ao Senhor, e tudo que há em mim bendiga o Seu santo nome.
Bendize, ó minha alma ao Senhor e não te esqueças de nenhum só de Seus benefícios."
(Sl 103)



Visto que minha razão navega nesse fluxo de fé.

Arrivederci.

Monday, September 12, 2011

Consultando com o coração...

Em um dos seus muitos salmos Davi diz:
"irai-vos mas não pequeis, consultai com vossos corações em vossos leitos e calai-vos".

Esses dias me irei.
E sem saber muito bem o porquê do estar tão irada me afligi.

Me fiz tantas e inúmeras perguntas, vasculhei todas as situações cotidianas vividas no intervalo entre a última felicidade e aquele sentimento iracundo e não encontrei um alvo no qual pudesse jogar todos os meus dardos inflamados.

Culpei então a conjuntura e calei-me em meu leito.

O estranhamento que me perseguiu foi o da aflição do não saber o que me irava...
Queria achar um motivo, como se achando-o pudesse me livrar de mim mesma
e do mal estar que me causava existir em tão particular momento.

Foi um momento, e escrevê-lo, às vezes, parece o tornar maior ou mais importante.
Foi só um momento, desses que temos todos os dias.

O caso só se estabeleceu porque eu parei pra pensar o momento e a aflição, e dissecá-los e investigá-los - trabalho que sempre requer tempo e atenção grandes.

Eu estava consultando com meu coração as minhas circunstâncias e explorando, assim,
os confins da minha alma em busca de...
... transformação.

Um dia decidi fazer-me.
Participar ativamente da construção de mim.

Descobri duas coisas tão vitais quanto inéditas:
1) É trabalho para a vida toda. Trabalho pesado de lapidar pedras. Pedreira!
2) Somos capazes de muito infinitamente mais na elaboração de nós mesmo do que supomos.

Existe uma falácia de uma sobredeterminação dura que não nos deixaria ir onde queríamos ou quisermos no modelar de nossa personalidade.
Mentira!
A sobredeterminação é tão mais maleável do que supomos, é só uma escama, um contorno sobre um imenso por vir, um devir...

No entanto, trabalhar o contorno significa que, vez por outra, nada nos segurará, nos dará amparo...
Isso pode causar tamanho pânico que imobiliza qualquer um!

Mas não é o contorno o que realmente importa, é o núcleo, e as conexões que dali se espalham...

Enfim...
Às vezes, dói.
Mas estar disposta a promover mudança em mim toda vez que em mim, me surpreendo sendo;
E estar disposto a desenhar meu próprio contorno baseado no que quero ser e no que creio;
E saber que isso pode mudar, mas que do mesmo modo, também eu posso;
Dá sabor à existência.

Quem foi que disse que ia ser fácil?
Do mesmo modo, quem jamais disse que seria impossível?

Eu, continuo crendo.

... e vivendo esse crer na existência.


"Ao que lhe disse Jesus: Se podes?!!  Tudo é possível ao que crê!"
Mc09:23


Arrivederci.

Monday, September 5, 2011

Há quanto tempo...

Às vezes as coisas demoram a acontecer. Às vezes a sensação é de que estão indo muito rápido e saindo ao controle...
Às vezes as duas coisas parecem coincidir e sentimos a vertigem de um paradoxo vivido na pele...
Este é o nono mês desde o meu retorno... Nove meses e correndo... Correndo... Correndo...

O que é isso sobre o tempo que me perturba tanto? Que me faz tão estrangeira no momento, literalmente?
Eu não sei... Busco saídas... Mas tem sido inútil...

Hoje descobri que na Korea do Sul crianças tem aulas domingo inclusive, e homens fazem plástica facial em grande quantidade... Curiosidades de um cotidiano tão alheio...

Me dei conta de um egoísmo ou uma fixação... De uma preocupação boba, talvez...

Enquanto um amigo que há muito não via, nem falava e de quem não tive noticias nesses (e até mais de) nove meses, se preocupa com crianças Coreanas e tenta fazer o seu melhor para contribuir para uma melhora do mundo do modo como ele crê que vale à pena; eu passei os últimos nove meses quase que inteiramente preocupada com uma só pessoa... Uma unica pessoa.
- Quase...
Se eu buscar, consigo boas, reais e estáveis justificativas para meu comportamento, inclusive descaracterizando-o e provando a mim mesma que não foi bem assim, que estou exagerando e sendo má comigo mesma e até conseguirei certo alívio de consciência e redenção de alma...

Mas vale?!!

Quero deixar essa angústia no ar!!
... por enquanto.

Não quero justificá-la.
Não quero me condenar pronta e incisivamente.
Não quero alimentar culpa ou criar motivos...

Quero observar o evento.

Olhá-lo por longo tempo, olhá-lo com todo esse estranhamento...
Analisá-lo como um antropólogo faria, sem rótulos ou preconceitos.

Chegar a uma conclusão que aponte para o futuro.
O que é possível fazer daqui para frente?
O que devo, o que posso, o que realmente quero?

Agir sobre essa descoberta, deixar o passado enterrar seus ossos.

É bom ter fresco na memória que a vida é sempre daqui pra frente, e que nosso passado não profetiza (não determina, nem mesmo escreve) nosso futuro.

O que eu sei e tenho plena convicção é que:
"Todas as coisas corroboram 
para o bem daqueles que amam a Deus
e que foram chamados segundo o seu propósito"
Rm 8:28


E isso eu não quero perder de vista, ou esquecer, ou falsear.
Quero somente crer, para a conservação da alma, para a salvação da vida,
...para ter vida em abundância.

A escrita de um futuro está na destreza de nossas mãos, na vontade da nossa alma, na coragem do nosso coração, e, acima de tudo isso, na confiança em Deus.

TUDO é possível ao que crê.

... Eu creio.

Arrivederci.