Monday, June 27, 2011

Como uma partida de xadrez...

Depois de peregrinar livre num mundo sem internet, volto à escrita do estranhamento cotidiano - até porque este nunca se extingue de mim, graças a Deus! ... A pior coisa que poderia me acontecer seria deixar de estranhar o cotidiano...

Volto com uma situação de ônibus
(não ha melhor lugar para se estranhar o cotidiano do que o ônibus! ...Bom, talvez a praia!).

Sentei-me perto de um senhor esses dias e como de costume lia um livro.
Percebi que o senhorzinho me olhava e olhava para o meu livro e pensei comigo mesma: "Ele quer falar comigo."

Estava certa, na primeira oportunidade, causada pela impaciência de um outro passageiro que esbraveja com sua mulher na tentativa de educar todo o ônibus (pobre mulher!), ele puxou assunto comigo.

E falamos da vida, do livro, de poesias, de Deus.
E no meio de suas aventuras e desventuras narradas ali, esse senhorzinho simpático me disse a seguinte frase: "A vida é como uma partida de xadrez. E como é que agente faz?! Agente protege nosso rei e nossa rainha até o fim, o máximo que agente puder!!"

E o estranhamento surgiu: 'Hum... É verdade... Todos nós carregamos um rei e uma rainha dentro de nós... Um rei e uma rainha que devemos proteger...'

Essa metáfora do xadrez, vinha me rodeando a existência.
Estranhei, também, tal coincidência...

O fato é que eu não sei jogar xadrez.
Não que nunca tenha jogado, mas pouco me diverti fazendo.
Sendo honesta ao máximo: nunca ganhei uma partida sequer de xadrez na vida, e sempre me confundi com o movimento do cavalo, e sempre me esquecia de que a rainha podia se movimentar livremente em todas as direções...

Então, não é a rainha a peça mais poderosa do jogo?!
Então, não é ela a mais eficaz em proteger o rei e, por isso mesmo, deve ser também tão protegida quanto?!
Se você esquece disso o tempo inteiro no meio da partida, como é que você vai, um dia, ganhar?!

E, se a vida é como uma partida de xadrez...
E, se meu rei e minha rainha devem ser protegidos ao máximo e até o fim, como me sugeriu o senhorzinho do ônibus...
E, se eu não sei jogar xadrez?!!...

Eu precisava mesmo dessa metáfora.
Precisava dessa conversa.
Preciso prestar atenção na minha vida.
... E, por consequência, nas minha prioridades.
Desvendar o que é rei e o que é rainha em minha alma, e fazer um esforço sério e real de jogar uma partida digna.
Afinal de contas, é a vida.

"Se fosse possível ver o que se passa na cabeça de um enxadrista, 
iríamos descobrir um irrequieto mundo de sensações, imagens, 
movimentos, paixões e um panorama sempre mutante de estados de consciência. 
As nossas mais precisas descrições, comparadas às deles, 
não passam de esquemas grosseiramente simplificados."
Alfred Binet


Arrivederci,

Wednesday, June 15, 2011

Complexo de Jonas

Esses dias em uma aula sobre teorias da personalidade, me reencontrei com um pensador/teórico da psicologia, que descreveu em sua teoria um fenômeno da personalidade que ele denominou Complexo de Jonas.

O primeiro grande estranhamento vivi ao perceber que a professora que dava a aula, não tinha idéia de quem era Jonas. Coisa infame que me recuso a comentar!!

O segundo veio do fato em si, e simples, de Maslow ter escolhido Jonas para nomear seu complexo do medo de nós mesmos, de nosso destino.

Interessante isso.

Interessante pensar que temos medo de um nosso destino, que sentimos intimamente nosso.
Sabemos que devemos fazer,
sabemos que podemos fazer,
sabemos que seríamos ótimos fazendo,
mas ao vislumbrar uma real possibilidade de fazer, fugimos para o lado oposto.

É delicado isso, é algo que poucos percebem.
Jonas não queria ir para Nínive, porque ele sabia que se ele fosse ele seria bem sucedido, e ele não queria isso.
Jonas não gostava dos ninivitas...
Mas ele sabia que seria bem sucedido!!
Então fugiu.

Na história, no entanto, Jonas acaba realizando seu destino à semelhança das tragédias gregas, e com direito a moral da história e tudo mais.
Mas será que na nossa vida pós-?( - e o que somos agora? Ainda pós-modernos?),  é também assim?
Será que depois de uma tempestade,
de uma rejeição global,
de uma violência,
de um peixe
e de sermos vomitados,
conseguiremos, finalmente, cumprir aquele destino para o qual fomos predestinados e seremos bem sucedidos como sabíamos que íamos ser?
E então, - eis a questão principal pra mim - Ficaremos felizes ou tristes? Com uma sensação de completude, ou frustrados?

Acho que tudo depende do que sentimos pelos ninivitas...
Jonas ficou frustrado e mal-humorado, porque foi bem sucedido.

Acontece...

(Acho que todos passam por uma fase Jonas na vida...De um modo ou de outro...)

Mas também, acho que ninguém precisa passar por tudo isso com relação a um destino.
- "Levanta-te e tende bom ânimo."
Se sentimos que podemos fazer, façamos!!!
Façamos logo, façamos de cara!
Nada de fugir para o lado oposto, nada de se esconder no porão e dormir, enquanto a vida te chama lá fora....

Sejamos donos do nosso destino, sejamos bons e grandes naquilo que podemos ser.

E porque não?...


"O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo,, 
ainda que tenha razão."
Álvaro de Campos.


Arrivederci.



PS.: Da associação livre:

"Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça,
inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança


Venha meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar


Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade"
Chico Buarque.