Tuesday, May 31, 2011

E aquele método científico da tentativa e erro?...

Ando tentando...
E o caminho do tentar é... árido.

Ando pedindo conselhos e rejeitando conselhos.
Tento.

Ando querendo manter na memória aquilo que me pode dar esperança.
Repito.

Ando um pouco repetitiva...
Elaboro?

Ando elaborando e recordando e esperando (de esperança).
Spero.

Ando pelo vale da sombra da morte.
Confio.

Ando confiando num futuro que não é feito de ditames do passado.
Inovo.

Ando à vanguarda.
Creio.

Mantenho inabalável a confissão da minha esperança.
E vou.

Caminho só, mas em muito boa companhia.



"Alta a noite já se ia,
ninguém na estrada andava.
No  caminho que ninguém caminha,
alta a noite já se ia,
Ninguém com os pés na água.
Nenhuma pessoa sozinha ia,
nenhuma pessoa vinha
Nem a manhãzinha,
Nem a madrugada,
Nem a estrela-guia,
Nem a estrela D'alva
Alta a noite já se ia"...
Arnaldo Antunes.

Arrivederci.


Monday, May 23, 2011

Fé...

Como é possível que algo seja um fundamento, e um fundamento firme, uma base, um alicerce, de algo que se espera? Como é possível que algo seja a certeza daquilo que não vemos?
Poderíamos dizer que isso é uma quimera, uma utopia irrealizável.
Mas algo escapa, e temos a certeza de que alguma vez na vida, de algum jeito muito estranho, já vivemos isso.
Tivemos certeza absoluta que éramos capazes de realizar um algo que ninguém conseguiu ver, só nós, que ninguém acreditou, só nós, e pareceu-nos fácil, a nós, mas um milagre a outros.
Acho mesmo que milagres acontecem assim...

Hoje estranhei a fé.
Por um momento me vi sem fé em nada.
Nada era possível, nada era realizável, nada no mundo!
Por um momento perdi-me completamente em um sentimento tão vazio que quase sufoquei.
Foi um momentinho rápido, pequeno, horrível.

Então entendi: é impossível viver sem fé!
É impossível acordar sem fé, se vestir sem fé, sair de casa sem fé.
É impossível andar de ônibus sem fé!!
É preciso ter a convicção de base de que as coisas que esperamos do mundo, estão lá para serem encontradas: nosso trabalho, nossos amigos, nosso ônibus...
É preciso crer sem provas ou fatos, que o motorista daquele ônibus realmente aprendeu a dirigir um dia, que sabe o que faz e onde está te levando...
Ou ainda, aproveitando a velha nau, é preciso crer que o capitão da barca existe,
que ha alguém navegando essa grande maquina que cruza a Guanabara todos os dias com vc dentro (eu nunca vi o capitão da barca... Acho que eu sempre cri que ele estava lá...)

Nem paramos pra pensar o quanto usamos de fé no dia-a-dia...
Mas, se é tão fácil ter essa fé chuleira do cotidiano, que nem reparamos, que nem questionamos,
Porque é tão difícil ter para as coisas maiores?

No capitulo da fé do livro de Hebreus, o escritor além de dar essa definição de fé:
"A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a certeza das coisas que não se vêem"
(a propósito, também nunca vi o maquinista do trem!! Morei 2 anos na Itália e nunca vi o maquinista do trem!!)
Ele nos diz algo muito interessante: Sem fé é impossível agradar a Deus, pois aquele que vem a ele, deve acreditar que ele existe e é galardoador dos que o buscam.

Pensando sobre isso de uma fé cotidiana, ralé, simples, me assustei de ver que essa definição já estava lá: é necessário que aquele que vem a ele creia que ele existe!!
Que óbvio!!
Como é que falamos com alguém se não acreditamos que esse alguém existe e pode nos ouvir e entender?!!
Como é que entramos no trem sem acreditar que o maquinista está lá?!

Ter fé é mais simples do que parece, mais comum do que se acredita, mais fácil do que se vende por aí...
Eu acho que a fé é simplesmente uma atitude.
Fé é viver fé, é fazer fé, é atitude!!
Não sentimento.

Que estranho perceber isso!...
Quantas aberturas de pensamento...
O que fazer agora com toda essa fé?!...

"Todos estes morreram na fé, 
sem terem alcançado as promessas; 
mas tendo-as visto e saudado, de longe, 
confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra."
Hb 11: 13


Arrivederci.

Monday, May 16, 2011

Ocaso...

Continuo estrangeira nesse momento. Tento agora algo novo nesse espaço...
Ando gostando das metáforas... Na verdade sempre gostei das metáforas!!

Ainda estamos no barco, então.
Nossa nau aportou em uma ilha.
- Isso significaria que o marinheiro bêbado do escrito anterior desatou o nó?!
Ainda não tenho elementos que confirmem essa esperança. Mas não desanimemos. Não.

Era a hora do ocaso. O céu estava laranja.
Devo dizer que essa é a hora do dia preferida da tripulação de um da nau que acompanhamos aqui. A hora em que o sol está se pondo e o céu fica laranja. Isso só acontece no outono.
Mas na tarde específica em que aportei na ilha, chovia na tarde laranja. Chovia demasiadamente para um dia de sol - coisa que só acontece em países tropicais.

A ilha?
A ilha é pequena. É quase pequena demais...
Chove só na ilha. O resto do céu é laranja e o sol está se pondo...

E se vc chegou até aqui e se inquietou um pouco e se perguntou impaciente: "Ok, já entendi. Mas onde é que vc está indo com essa metáfora?!! O que é que vc quer dizer com tudo isso?!! Céu laranja, pôr do sol, ilha, chuva?!!

Admito: a lugar algum.
A ilha é demasiado pequena!
Não é possível ir a lugar algum.

O sol está se pondo, o céu está laranja lindo, mas chove.
Parece que ainda estamos esperando algo passar.
Mudou-se o porto, mas não tanto as expectativas...
A vida segue.

As paixões são como ventanias que inflam as velas dos navios,
fazendo-os navegar,
outras vezes podem fazê-los naufragar,
mas se não fossem elas, 
não haveria viagens,
nem aventuras ,
nem novas descobertas."
Voltaire.


Arrivederci.

Tuesday, May 10, 2011

O nó

Ainda embarcados nessa nau, aproveito para falar do nó.

Estou vivendo um momento nó.
Tenho agora essa nítida sensação de que minha vida deu um nó terrível.
Nó de marinheiro?...

Uma vez vi um nó de marinheiro, um, dos tantos que eles sabem fazer.
E algo me intrigou naquele específico nó.
Era o fato de que ele parecia estar frouxo e poder ser facilmente desfeito, bastava levantar ele daquele pino de metal e ele não seria nada além de uma corda inerte.
Mas ali, do modo como estava enlaçado ao pino, por mais que parecesse frouxo, inofensivo, mesmo um pouco incompetente, aquele nó não se desfazia, e pior, quanto mais se puxava, mais forte ele se tornava!
O barco estava seguro enquanto aquele nó estivesse no pino de ferro...
Era o modo, a relação entre o nó e pino que fazia dele um nó especial.
O mar balançava o barco e o remexia e tentava levá-lo dali, mas aquele nó o segurava firme, o trazia de volta para perto do cais, exercendo com primor a função para a qual fora designado.
Era um nó muito curioso para mim... Tanto, que nunca o esqueci.

...Espero não ser esse o nó que ata o meu momento.
Caso seja, espero que haja uma mão capaz de desfazê-lo...

É muito simples desfazer o nó, é só tirar ele do pino, pronto, ele se desfaz em corda desenlaçada.
Mas o fato é que, para tal, é necessário ser algo, um ser, fora do nó.
Não ser corda, nem pino, nem barco, nem cais...
É preciso ser o marinheiro (ou a criança travessa que brinca no cais de soltar barcos só pra ver o que acontece... Ou gato, que brinca com cordas só pelo prazer que isso lhe dá - mas aí há um tremendo perigo: acabar todo enrolado na corda...)...

Da onde estranho as coisas agora, minha vida é a corda que deu o nó. Eu acho que sou o pino, mas, às vezes, acho que posso ser barco...
Tenho a quase convicção de que não sou o marinheiro (nem a criança, nem o gato)...
Mas se assim o fosse, me pergunto: então quem teria dado o nó?

Talvez eu seja o marinheiro...
E esse escrito é o delírio da embriaguez de ontem que me largou no chão do cais de onde vejo de viés e bem de perto o nó que fiz, e onde um gato me lambe o rosto e uma criança me roubou o quepe caido e saiu correndo...

Quem sabe, assim que o sol se levantar e se fizer forte e me esquentar o corpo e o rosto acendendo o pavio da minha ressaca, eu possa me levantar, vomitar, pegar meu quepe largado em algum canto pela criança travessa, desatar o nó, entrar em meu barco e seguir o rumo que intentava seguir antes da embriaguez...

Embriaguez ou nó?!....
Não importa... O momento não precisa, necessariamente, de um nome, ou de uma metáfora...

Nó, se desfaz com paciência...
Embriaguez, passa...
Momentos...

O importante é conseguir voltar os olhos pro horizonte, onde o infinito se mostra como possibilidade.

"Aguardo, equânime, o que não conheço - 
Meu futuro é o de tudo
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada."
Ricardo Reis
Arrivederci.

Monday, May 2, 2011

Entre a contigência e o plano se navega...

E "navegar é preciso" (...)
Há algo bom na metáfora do navegar que enche o coração,
especialmente um crescido à beira do mar...

Quando se está lá, no mar, nenhum continente te pertence e todos te são possíveis...
A questão é sempre a mesma, do querer.
Para onde se quer ir, onde se quer chegar.
E, mais importante que esses dois vetores:
O que eu faço com o meu querer?

...Eu quero o impossível.
Eu quero o que não existe, o que não é, o que não está.
Talvez essa seja a minha neurose. Mas a mantenho: Quero o impossível.

O impossível é só agora, é só o momento, é só o limite do alcance dos olhos.
O impossível não é da alma, não é do espírito, não é de Deus - "Para Deus não há impossíveis."

O impossível é só uma angustiazinha imediata. O impossível é um rótulo. É uma piada.
É um ato covarde. É uma escolha pessimista.
Uma alma qualquer, pode, a qualquer momento, quebrar o encantamento do impossível,
basta vislumbrar uma riqueza qualquer na contigência e caminhar em direção a ela.

Eu quero o impossível!
E vou tê-lo.

Existem guerras e guerras. E para todas elas, uma escolha precedente.
Qual é a guerra que vale à pena?!?

A minha resposta é só uma - A mesma de Jesus (eu acho...):
Aquela que se luta por amor.

O Amor é o que realmente importa, é o que resta, é o que sobrevive às gerações,
é o unico tesouro real que podemos deixar para quem vem depois.

E quando falo de amor, falo do AMOR,
aquele raro, quase extinto, marginal, mal interpretato, falsificado e pirateado em todos os cantos,
mas que existe e é a atitude de um coração disposto a perdoar sempre e denovo, e sempre e denovo e denovo...

O Amor da carta aos Coríntios, que não ressente o mal,
não procura seus próprios interesses,
que não imputa maldade,
que não se envaidece,
que tudo espera, que tudo crê, que tudo suporta.
Aquele que jamais acaba.

O Amor que quero ter, viver, passar...
E ensinar aos meus filhos.

O Amor que soa a impossível,
mas que é a simples atitude de vontade de um coração puro e de um espirito inabalável.

E que, pra mim, é a vela da nau que sou,
Que navega com divina precisão,
Segue a cartografia de um plano e me mostra só contigências.

(...)"viver não é preciso".


"Não sabendo que era impossível, foi lá e fez." 
                                       - Jean Cocteau


Arrivederci.