Monday, October 3, 2011

Estrangeiros... Estrangeira.

"Aqueles que permitem as transgressões da alma com certeza são vistos e recebidos pelos outros como estrangeiros. Os que mudam de emprego radicalmente, os que refazem relações amorosas, os que abandonam vícios, os que perdem medos, os que libertam e os que rompem experimentam a solidão que só pode ser quebrada por outro que conheça essas experiências." (Nilton Bonder - A Alma imoral)


Para se reconhecer estrangeira em momentos, foi necessário ter sido estrangeira na vida.
Só quem já foi forasteiro, ilegal, marginal no espaço geográfico e experimentou todas essas coisas descritas acima, no mundo interno tanto quanto no externo, sabe, na alma, do que se trata o ser estrangeiro...

É verdade que essa solidão só é quebrada quando se encontra um outro que conhece essas experiências, ainda que elas sejam de natureza totalmente diferente...
Um "Conterrâneo de Alma".

Um estrangeiro reconhece outro.
Um transgressor reconhece outro...

O que me lança em um novo lugar de estranhamento, hoje, é perceber que... o quão amplo é esse deserto...

Estou estrangeira no momento, na vida e em todas as minhas circunstâncias.
(Me pergunto: Foi sempre assim?...)
Rompi com tudo que o mundo quer de mim, rompi com a ordem 'natural' das coisas...
Escolhi nadar contra a corrente...
(Só pra exercitar?...)

E fiquei só.

Mas como já disse por aqui: Meus olhos guardam o infinito.
(Foi sempre assim)
Tudo é possível ao que crê e enquanto eu me mantiver fiel a isso que em mim ousa a transgressão sempre que ela se faz necessária, mares irão se abrir diante dos meus olhos, como sempre fizeram em minha vida.

"D'us é companheiro constante do estrangeiro e daquele que segue seu caminho 
por mais que este divirja do consenso moral de uma comunidade"
(idem)


Eu saúdo,(Parafraseando, ainda, o Barão Vermelho:)
Aos que estão aqui para qualquer viagem
e que não ficarão esperando a vida passar tão rápido.
Pois a felicidade, é um estado imaginário.
(- Construímos!)

"Pense, dance, pense, pense e dance"....

Arrivederci.

Monday, September 26, 2011

Farinha...

É tão estranha, às vezes, a questão da fé.
Pouco tempo faz, escrevi algo aqui falando da fé cotidiana, de ônibus, trens, e barcos...

Sobre a fé ser um agir, um se colocar, uma atitude.

Um manter-se em movimento? Talvez...

Esses dias me encontrei com uma história, dessas perdidas dentro da bíblia em meio a tantas outras grandes e interessantes.
Uma história pequena que causa, ao menos a mim, um grande estranhamento...

Essa história fala de um profeta e seus aprendizes. Conta que um deles colheu algumas ervas no campo, a pedido do profeta, para fazer uma sopa, em um tempo onde havia uma escassez - "fome sobre a terra".
Por engano, o aprendiz colheu umas ervas venenosas e quando todos se reuniram para comer a sopa, alguém percebeu, e alertou o profeta dizendo que havia "morte na panela".
Então, o tal profeta pegou um monte de farinha e misturou naquele caldo e disse a todos:
 - pronto, podem comer!
E eles comeram, e ninguém morreu.

De toda essa história e dos comentários interessantes que se seguiram a ela no dia em que presenciei sua leitura, a coisa que ficou solta, vagueando, desafiando, causando entranhamento, mobilizando meus pensamentos foi essa palavra, e esse ato desconexo: Farinha...
Farinha?... Jura?! Farinha...?!!

Essa coisa sem sentido, sem quê nem porquê.
Farinha...
Esse ato.

Uma ação, uma atitude.
O Profeta não precisava fazer sentido ou ter sentido, encerrar razão ou cientificidade, nem mesmo entender de culinária ou ervas.
Ele tinha que agir.
Agir em cima de uma convicção.

O resultado não foi consequência do que ele fez, mas que ele fez!!

... Me admira de igual modo a fé de quem comeu.
Talvez a fome facilite acreditar no que pode aplacar a necessidade.

O que me faz estrangeira nessa história é a farinha...

Vou pegar um punhado de farinha e mudar minha história!
Qualquer coisa insignificante, que possa ser vetor de um investimento de fé.
Qualquer coisa vale!
Qualquer oi, qualquer palavra, qualquer ato.
Isto aqui!
E por que não?!!
Contanto que esteja calcado na convicção de que é da ação que surgem os milagres.
Do movimento que captura o sorriso de Deus.
Basta agir.
Confiar.

E Ele tudo fará.


"Não queiras entender para crer; crê para que possas entender.
Se não crês, não entenderás."

Santo Agostinho

Arrivederci.

Monday, September 19, 2011

A Alma...

"Tenha coragem de te servires da tua própria razão!"

Às vezes, me perco entre as muitas linhas teóricas e filosóficas. No mais das vezes, verdadeiramente, acho que tudo é verdade com raríssimas exceções...
E, então, me vejo forçada a concordar com Deleuze, Guattari, Foucault e toda sorte de relativistas, que me fazem, por vezes, achar que a esquizofrênica sou eu...

O estranhamento é sentir que a alma é essa esponja. Absorve tudo e se agita.
Quer um mundo de 'vastas emoções e pensamento imperfeitos'.

A alma não pode ser sem a razão...

Eu não sei o que Kant quis realmente dizer com a frase acima,
mas a razão é conteúdo.
E da onde vem esse conteúdo se não da alma?

Nos sobra o espirito e a experiência.
Tudo isso é conjunto. Nada exclui nada.

Para a psicanálise, temos ainda que enfiar o inconsciente aí em algum lugar, que eu vou marcar nessa cartografia apenas inferida, como sendo em um ponto equidistante entre alma e mundo externo.

E pronto. Ei-nos inteiros.

Sinto-me uma bagunça, no entanto...
E aqui, precisamente, reconheço o trabalho da minha alma, ela desconjuntura, argui, mexe e remexe os conteúdos, questiona decisões...
Mas não é má a alma, ela não faz isso por implicância ou desafio, não faz isso pra te "testar"!...
A alma simplesmente faz isso.
Talvez a alma seja como uma criança que brinca com tudo que chega às suas mãos, levá à boca, joga no chão, ri, bate nos outros... A alma quer descobrir...

Cabe a outra instância dar o limite, o contorno, o amparo.

E, talvez, aqui a frase do Kant nos sirva: Tenha coragem de te servires da tua própria razão!

É fato que isso vai variar enormemente de pessoa pra pessoa
(como mudou e muda na filosofia até os dias de hoje - A razão kantiana não foi a razão para tantos outros...).
Mas em um âmbito amplo e ao mesmo tempo singular,
o que anda te dizendo a tua razão frente à desarrumação provocada pela tua alma?

No conjunto de tudo o que sou, reunindo todas as instâncias que pude reconhecer aqui-agora, e descrever nesse momentinho singular de reflexão,

digo à minha alma:
"Porque estás abatida ó minha alma? Porque te perturbas dentro de mim?
Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu."
(Sl 43)
"Bendize, ó minha alma ao Senhor, e tudo que há em mim bendiga o Seu santo nome.
Bendize, ó minha alma ao Senhor e não te esqueças de nenhum só de Seus benefícios."
(Sl 103)



Visto que minha razão navega nesse fluxo de fé.

Arrivederci.

Monday, September 12, 2011

Consultando com o coração...

Em um dos seus muitos salmos Davi diz:
"irai-vos mas não pequeis, consultai com vossos corações em vossos leitos e calai-vos".

Esses dias me irei.
E sem saber muito bem o porquê do estar tão irada me afligi.

Me fiz tantas e inúmeras perguntas, vasculhei todas as situações cotidianas vividas no intervalo entre a última felicidade e aquele sentimento iracundo e não encontrei um alvo no qual pudesse jogar todos os meus dardos inflamados.

Culpei então a conjuntura e calei-me em meu leito.

O estranhamento que me perseguiu foi o da aflição do não saber o que me irava...
Queria achar um motivo, como se achando-o pudesse me livrar de mim mesma
e do mal estar que me causava existir em tão particular momento.

Foi um momento, e escrevê-lo, às vezes, parece o tornar maior ou mais importante.
Foi só um momento, desses que temos todos os dias.

O caso só se estabeleceu porque eu parei pra pensar o momento e a aflição, e dissecá-los e investigá-los - trabalho que sempre requer tempo e atenção grandes.

Eu estava consultando com meu coração as minhas circunstâncias e explorando, assim,
os confins da minha alma em busca de...
... transformação.

Um dia decidi fazer-me.
Participar ativamente da construção de mim.

Descobri duas coisas tão vitais quanto inéditas:
1) É trabalho para a vida toda. Trabalho pesado de lapidar pedras. Pedreira!
2) Somos capazes de muito infinitamente mais na elaboração de nós mesmo do que supomos.

Existe uma falácia de uma sobredeterminação dura que não nos deixaria ir onde queríamos ou quisermos no modelar de nossa personalidade.
Mentira!
A sobredeterminação é tão mais maleável do que supomos, é só uma escama, um contorno sobre um imenso por vir, um devir...

No entanto, trabalhar o contorno significa que, vez por outra, nada nos segurará, nos dará amparo...
Isso pode causar tamanho pânico que imobiliza qualquer um!

Mas não é o contorno o que realmente importa, é o núcleo, e as conexões que dali se espalham...

Enfim...
Às vezes, dói.
Mas estar disposta a promover mudança em mim toda vez que em mim, me surpreendo sendo;
E estar disposto a desenhar meu próprio contorno baseado no que quero ser e no que creio;
E saber que isso pode mudar, mas que do mesmo modo, também eu posso;
Dá sabor à existência.

Quem foi que disse que ia ser fácil?
Do mesmo modo, quem jamais disse que seria impossível?

Eu, continuo crendo.

... e vivendo esse crer na existência.


"Ao que lhe disse Jesus: Se podes?!!  Tudo é possível ao que crê!"
Mc09:23


Arrivederci.

Monday, September 5, 2011

Há quanto tempo...

Às vezes as coisas demoram a acontecer. Às vezes a sensação é de que estão indo muito rápido e saindo ao controle...
Às vezes as duas coisas parecem coincidir e sentimos a vertigem de um paradoxo vivido na pele...
Este é o nono mês desde o meu retorno... Nove meses e correndo... Correndo... Correndo...

O que é isso sobre o tempo que me perturba tanto? Que me faz tão estrangeira no momento, literalmente?
Eu não sei... Busco saídas... Mas tem sido inútil...

Hoje descobri que na Korea do Sul crianças tem aulas domingo inclusive, e homens fazem plástica facial em grande quantidade... Curiosidades de um cotidiano tão alheio...

Me dei conta de um egoísmo ou uma fixação... De uma preocupação boba, talvez...

Enquanto um amigo que há muito não via, nem falava e de quem não tive noticias nesses (e até mais de) nove meses, se preocupa com crianças Coreanas e tenta fazer o seu melhor para contribuir para uma melhora do mundo do modo como ele crê que vale à pena; eu passei os últimos nove meses quase que inteiramente preocupada com uma só pessoa... Uma unica pessoa.
- Quase...
Se eu buscar, consigo boas, reais e estáveis justificativas para meu comportamento, inclusive descaracterizando-o e provando a mim mesma que não foi bem assim, que estou exagerando e sendo má comigo mesma e até conseguirei certo alívio de consciência e redenção de alma...

Mas vale?!!

Quero deixar essa angústia no ar!!
... por enquanto.

Não quero justificá-la.
Não quero me condenar pronta e incisivamente.
Não quero alimentar culpa ou criar motivos...

Quero observar o evento.

Olhá-lo por longo tempo, olhá-lo com todo esse estranhamento...
Analisá-lo como um antropólogo faria, sem rótulos ou preconceitos.

Chegar a uma conclusão que aponte para o futuro.
O que é possível fazer daqui para frente?
O que devo, o que posso, o que realmente quero?

Agir sobre essa descoberta, deixar o passado enterrar seus ossos.

É bom ter fresco na memória que a vida é sempre daqui pra frente, e que nosso passado não profetiza (não determina, nem mesmo escreve) nosso futuro.

O que eu sei e tenho plena convicção é que:
"Todas as coisas corroboram 
para o bem daqueles que amam a Deus
e que foram chamados segundo o seu propósito"
Rm 8:28


E isso eu não quero perder de vista, ou esquecer, ou falsear.
Quero somente crer, para a conservação da alma, para a salvação da vida,
...para ter vida em abundância.

A escrita de um futuro está na destreza de nossas mãos, na vontade da nossa alma, na coragem do nosso coração, e, acima de tudo isso, na confiança em Deus.

TUDO é possível ao que crê.

... Eu creio.

Arrivederci.

Monday, August 29, 2011

Quero estar por perto

Eu adoro o declínio das estações. São minha época favorita do ano.
A minha estação preferida é o outono, sem sombra de dúvida. O outono á mágico para mim, é abril aqui, é a época de folhas alaranjadas e vermelhas pelo chão em outros lugares maravilhosos por onde passei. É a época do Thanks Giving...
Mas ha algo muito especial pra mim no 'entre'. Quando o verão vai virando outono, quando o outono vai virando inverno, quando o inverno vai virando primavera... E dias frios se interpõem a dias quentes, e dias de vento a dias de ar parado e ainda há chuvas...
Bom, sempre há chuvas. É o charme dos trópicos...

O entre: o 'in between'...

Fiquei longe do meu espaço de estranhamento por um breve período, fiquei longe de amigos, de 'contatos', de um mundo de 'vastas emoções e pensamentos imperfeitos'. Estive longe de qualquer novidade possível e me solidarizei à indiferença do mundo.
As estações continuam sua marcha cíclica em suave melancolia longe dos átrios virtuais, longe da exposição da vida alheia, longe das novidades irrelevantes cotidianas...

As pessoas que fazem falta continuam a fazer falta, não importa de quantas redes sociais você faça parte...
O que medica, em um grande numero de vezes não cura, e em outra porção singular delas, até impede a recuperação.
Quero evitar a iatrogenia da vida que nos é imposta por esse remédio falacioso que nos oferece o virtual.

Quero vida em abundância.

Quero estar presente quando puder estar presente. Quero ver de perto quando puder ver de perto. Quero tocar quando puder tocar. Quero olhar dentro dos olhos e ver a emoção do relato, ver o brilho que as boas memórias deixam. Quero sentir a brisa morna do verão no meu rosto e molhar os pés na água transparente e verde de uma praia longínqua qualquer e esquecer que levei a máquina fotográfica e despreocupar completamente do fato.
Quero estar por perto...

O paliativo existe. E existem, também, as situações e fatos e pessoas para quem tais medidas são uma benção.
Quero poder fazer uso do paliativo para todas as situações de saudades irremediáveis!

...Mas quando eu puder estar perto de você, não vou remediar.

"Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, 
se bem me lembro
O melhor futuro: é esse hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o tejo escorrendo das mãos
Quero a Guanabara, quero o Rio Nilo,
Quero tudo ter, estrela, flor, estilo,
Tua língua em meu mamilo
água e sal
Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quanto
Vida, vida, noves fora, zero
Quero viver, quero ouvir, quero ver"
Zeca Baleiro

Tuesday, July 12, 2011

Dúvidas...

Minha aula de violão é um manancial no fim da minha semana. É um tempo em que tudo o que faço me agrada enormemente, e a companhia é ótima.
É comum eu sair da aula com muito mais do que só uma lição de violão.
Saio com insights, com preciosas descobertas filosóficas, com uma música nova pra treinar durante a semana (ou ao menos um novo acorde - coisa que nem sempre faço...).

Meu querido professor me deu duas coisas pra estranhar no decorrer desses seis meses de aulas. Coisas que guardei em mim como pontos de reflexão.

A primeira foi a afirmação categórica que ele me fez um dia: "Eu sei que Deus não existe. Mas eu acredito nele!"
E rimos...

A outra foi: "Eu queria acreditar em Deus, mas eu não consigo..."
E fizemos algum silêncio...Que eu quebrei com a seguinte frase: "Acredita aí!!! Afinal, Deus está em todo lugar e grandes filósofos criam nele, você não vai ser o primeiro, nem será o ultimo ..."
(Meu professor de violão é estudante de filosofia...)

O estranhamento que me acomete está no fato de que eu entendo ele,
entendo a dúvida dele,
entendendo verdadeiramente,
apesar de discordar completamente.
É um entendimento real e honesto,
ainda que destoante de mim e do meu modo de ver o mundo.

Entender, compreender as dúvidas, saber o porquê de certas decisões, não as torna suas, não faz de você cúmplice ou aliado da alteridade,
te faz só perceber  o quanto somos um ser no mundo como tantos outros
e o quão idiossincráticos podemos nos tornar, cada um no seu quadrado...
...Certo?

Mas me faz pensar sobre as dúvidas,
as dúvidas que viram bases de certas certezas,
e que depois de certo tempo, ninguém mais percebe ou sequer sabe,
que tantas das próprias certezas foram construídas sobre dúvidas jamais dirimidas,
jamais desfeitas...

A importância de uma dúvida,
pra mim,
é o fato dela indicar um caminho a ser perseguido em busca de algo,
daquilo que vai sanar a dúvida ou vai abrir novas possibilidades...
Como Sócrates e a sua maiêutica... Talvez...

Construir sobre dúvidas é construir sobre o oco,
e a qualquer momento, dependendo do peso da construção, tudo pode desabar...

Que perigo!...

"Não passam de traidoras as nossas dúvidas,
que às vezes nos privam do que seria nosso
se não tivéssemos o receio de tentar"
William Shakespeare


Arrivederci.

Tuesday, July 5, 2011

Um Sancho...

Esses dias me reencontrei com esse maravilhoso cd da 'Rita Lee e Tutti frutti', que ha muito estava desaparecido da minha vida, soterrado nas coisas que ficam pra trás.
É estranho perceber que hoje ele ainda soa tão bom quanto soou ha anos, ainda que as referências de vida sejam completa e inteiramente diferentes!!

Existe essa música que fala tão de perto à minha alma, como se falasse de dentro.
Fala de um Sancho...  

...Existe um Sancho que luta comigo contra os moinhos! 
Esse meu Sancho, é uma criatura especial e preciosa,
Que vê os meus erros e os ignora por amor.
Que percebe o perigo do devaneio, ou sua estupidez, 
mas empunha a espada e o enfrenta corajosamente comigo.
Que sabe que o objeto do meu amor é algo simples, ordinário, desqualificado e até impuro, mas se abaixa pra colher comigo as rosas com as quais quero presenteá-lo.
...Sem jamais condenar minhas escolhas, ainda que as tenha julgado perigosas.

Sou eternamente grata ao Deus pelo meu Sancho.
Pelo 'amigo mais chegado que um irmão', pelo 'amor que cobre uma multidão de pecados'.
Que são, para mim, os outros nomes do mesmo Sancho.

O que eu quero, do fundo do meu coração, é ser tão Sancho na vida dela, quanto ela é na minha.

Ser o protagonista da própria vida é o dado. O sabido. O normal.
Todos somos Dom Quixotes.
Mas importa saber se conseguiremos ser coadjuvantes de peso na existência dos que amamos,
daqueles que importam,
da 'família que nos permitiram escolher'...

No mais,
"Hoje posso dizer que estive em frente do perigo,
Mas tudo fica mais fácil quando existe algum amigo.
(...)
Também já posso dizer que não é nada estar sozinho,
Mas também quero ter meu Sancho pra lutar contra os moinhos!
(...)
Posso contar comigo numa solidão,
Mas ter algum alguém do lado é melhor pro coração"
Rita Lee - 'Posso contar comigo'

Arrivederci,

Monday, June 27, 2011

Como uma partida de xadrez...

Depois de peregrinar livre num mundo sem internet, volto à escrita do estranhamento cotidiano - até porque este nunca se extingue de mim, graças a Deus! ... A pior coisa que poderia me acontecer seria deixar de estranhar o cotidiano...

Volto com uma situação de ônibus
(não ha melhor lugar para se estranhar o cotidiano do que o ônibus! ...Bom, talvez a praia!).

Sentei-me perto de um senhor esses dias e como de costume lia um livro.
Percebi que o senhorzinho me olhava e olhava para o meu livro e pensei comigo mesma: "Ele quer falar comigo."

Estava certa, na primeira oportunidade, causada pela impaciência de um outro passageiro que esbraveja com sua mulher na tentativa de educar todo o ônibus (pobre mulher!), ele puxou assunto comigo.

E falamos da vida, do livro, de poesias, de Deus.
E no meio de suas aventuras e desventuras narradas ali, esse senhorzinho simpático me disse a seguinte frase: "A vida é como uma partida de xadrez. E como é que agente faz?! Agente protege nosso rei e nossa rainha até o fim, o máximo que agente puder!!"

E o estranhamento surgiu: 'Hum... É verdade... Todos nós carregamos um rei e uma rainha dentro de nós... Um rei e uma rainha que devemos proteger...'

Essa metáfora do xadrez, vinha me rodeando a existência.
Estranhei, também, tal coincidência...

O fato é que eu não sei jogar xadrez.
Não que nunca tenha jogado, mas pouco me diverti fazendo.
Sendo honesta ao máximo: nunca ganhei uma partida sequer de xadrez na vida, e sempre me confundi com o movimento do cavalo, e sempre me esquecia de que a rainha podia se movimentar livremente em todas as direções...

Então, não é a rainha a peça mais poderosa do jogo?!
Então, não é ela a mais eficaz em proteger o rei e, por isso mesmo, deve ser também tão protegida quanto?!
Se você esquece disso o tempo inteiro no meio da partida, como é que você vai, um dia, ganhar?!

E, se a vida é como uma partida de xadrez...
E, se meu rei e minha rainha devem ser protegidos ao máximo e até o fim, como me sugeriu o senhorzinho do ônibus...
E, se eu não sei jogar xadrez?!!...

Eu precisava mesmo dessa metáfora.
Precisava dessa conversa.
Preciso prestar atenção na minha vida.
... E, por consequência, nas minha prioridades.
Desvendar o que é rei e o que é rainha em minha alma, e fazer um esforço sério e real de jogar uma partida digna.
Afinal de contas, é a vida.

"Se fosse possível ver o que se passa na cabeça de um enxadrista, 
iríamos descobrir um irrequieto mundo de sensações, imagens, 
movimentos, paixões e um panorama sempre mutante de estados de consciência. 
As nossas mais precisas descrições, comparadas às deles, 
não passam de esquemas grosseiramente simplificados."
Alfred Binet


Arrivederci,

Wednesday, June 15, 2011

Complexo de Jonas

Esses dias em uma aula sobre teorias da personalidade, me reencontrei com um pensador/teórico da psicologia, que descreveu em sua teoria um fenômeno da personalidade que ele denominou Complexo de Jonas.

O primeiro grande estranhamento vivi ao perceber que a professora que dava a aula, não tinha idéia de quem era Jonas. Coisa infame que me recuso a comentar!!

O segundo veio do fato em si, e simples, de Maslow ter escolhido Jonas para nomear seu complexo do medo de nós mesmos, de nosso destino.

Interessante isso.

Interessante pensar que temos medo de um nosso destino, que sentimos intimamente nosso.
Sabemos que devemos fazer,
sabemos que podemos fazer,
sabemos que seríamos ótimos fazendo,
mas ao vislumbrar uma real possibilidade de fazer, fugimos para o lado oposto.

É delicado isso, é algo que poucos percebem.
Jonas não queria ir para Nínive, porque ele sabia que se ele fosse ele seria bem sucedido, e ele não queria isso.
Jonas não gostava dos ninivitas...
Mas ele sabia que seria bem sucedido!!
Então fugiu.

Na história, no entanto, Jonas acaba realizando seu destino à semelhança das tragédias gregas, e com direito a moral da história e tudo mais.
Mas será que na nossa vida pós-?( - e o que somos agora? Ainda pós-modernos?),  é também assim?
Será que depois de uma tempestade,
de uma rejeição global,
de uma violência,
de um peixe
e de sermos vomitados,
conseguiremos, finalmente, cumprir aquele destino para o qual fomos predestinados e seremos bem sucedidos como sabíamos que íamos ser?
E então, - eis a questão principal pra mim - Ficaremos felizes ou tristes? Com uma sensação de completude, ou frustrados?

Acho que tudo depende do que sentimos pelos ninivitas...
Jonas ficou frustrado e mal-humorado, porque foi bem sucedido.

Acontece...

(Acho que todos passam por uma fase Jonas na vida...De um modo ou de outro...)

Mas também, acho que ninguém precisa passar por tudo isso com relação a um destino.
- "Levanta-te e tende bom ânimo."
Se sentimos que podemos fazer, façamos!!!
Façamos logo, façamos de cara!
Nada de fugir para o lado oposto, nada de se esconder no porão e dormir, enquanto a vida te chama lá fora....

Sejamos donos do nosso destino, sejamos bons e grandes naquilo que podemos ser.

E porque não?...


"O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo,, 
ainda que tenha razão."
Álvaro de Campos.


Arrivederci.



PS.: Da associação livre:

"Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça,
inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança


Venha meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar


Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade"
Chico Buarque.



Tuesday, May 31, 2011

E aquele método científico da tentativa e erro?...

Ando tentando...
E o caminho do tentar é... árido.

Ando pedindo conselhos e rejeitando conselhos.
Tento.

Ando querendo manter na memória aquilo que me pode dar esperança.
Repito.

Ando um pouco repetitiva...
Elaboro?

Ando elaborando e recordando e esperando (de esperança).
Spero.

Ando pelo vale da sombra da morte.
Confio.

Ando confiando num futuro que não é feito de ditames do passado.
Inovo.

Ando à vanguarda.
Creio.

Mantenho inabalável a confissão da minha esperança.
E vou.

Caminho só, mas em muito boa companhia.



"Alta a noite já se ia,
ninguém na estrada andava.
No  caminho que ninguém caminha,
alta a noite já se ia,
Ninguém com os pés na água.
Nenhuma pessoa sozinha ia,
nenhuma pessoa vinha
Nem a manhãzinha,
Nem a madrugada,
Nem a estrela-guia,
Nem a estrela D'alva
Alta a noite já se ia"...
Arnaldo Antunes.

Arrivederci.


Monday, May 23, 2011

Fé...

Como é possível que algo seja um fundamento, e um fundamento firme, uma base, um alicerce, de algo que se espera? Como é possível que algo seja a certeza daquilo que não vemos?
Poderíamos dizer que isso é uma quimera, uma utopia irrealizável.
Mas algo escapa, e temos a certeza de que alguma vez na vida, de algum jeito muito estranho, já vivemos isso.
Tivemos certeza absoluta que éramos capazes de realizar um algo que ninguém conseguiu ver, só nós, que ninguém acreditou, só nós, e pareceu-nos fácil, a nós, mas um milagre a outros.
Acho mesmo que milagres acontecem assim...

Hoje estranhei a fé.
Por um momento me vi sem fé em nada.
Nada era possível, nada era realizável, nada no mundo!
Por um momento perdi-me completamente em um sentimento tão vazio que quase sufoquei.
Foi um momentinho rápido, pequeno, horrível.

Então entendi: é impossível viver sem fé!
É impossível acordar sem fé, se vestir sem fé, sair de casa sem fé.
É impossível andar de ônibus sem fé!!
É preciso ter a convicção de base de que as coisas que esperamos do mundo, estão lá para serem encontradas: nosso trabalho, nossos amigos, nosso ônibus...
É preciso crer sem provas ou fatos, que o motorista daquele ônibus realmente aprendeu a dirigir um dia, que sabe o que faz e onde está te levando...
Ou ainda, aproveitando a velha nau, é preciso crer que o capitão da barca existe,
que ha alguém navegando essa grande maquina que cruza a Guanabara todos os dias com vc dentro (eu nunca vi o capitão da barca... Acho que eu sempre cri que ele estava lá...)

Nem paramos pra pensar o quanto usamos de fé no dia-a-dia...
Mas, se é tão fácil ter essa fé chuleira do cotidiano, que nem reparamos, que nem questionamos,
Porque é tão difícil ter para as coisas maiores?

No capitulo da fé do livro de Hebreus, o escritor além de dar essa definição de fé:
"A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a certeza das coisas que não se vêem"
(a propósito, também nunca vi o maquinista do trem!! Morei 2 anos na Itália e nunca vi o maquinista do trem!!)
Ele nos diz algo muito interessante: Sem fé é impossível agradar a Deus, pois aquele que vem a ele, deve acreditar que ele existe e é galardoador dos que o buscam.

Pensando sobre isso de uma fé cotidiana, ralé, simples, me assustei de ver que essa definição já estava lá: é necessário que aquele que vem a ele creia que ele existe!!
Que óbvio!!
Como é que falamos com alguém se não acreditamos que esse alguém existe e pode nos ouvir e entender?!!
Como é que entramos no trem sem acreditar que o maquinista está lá?!

Ter fé é mais simples do que parece, mais comum do que se acredita, mais fácil do que se vende por aí...
Eu acho que a fé é simplesmente uma atitude.
Fé é viver fé, é fazer fé, é atitude!!
Não sentimento.

Que estranho perceber isso!...
Quantas aberturas de pensamento...
O que fazer agora com toda essa fé?!...

"Todos estes morreram na fé, 
sem terem alcançado as promessas; 
mas tendo-as visto e saudado, de longe, 
confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra."
Hb 11: 13


Arrivederci.

Monday, May 16, 2011

Ocaso...

Continuo estrangeira nesse momento. Tento agora algo novo nesse espaço...
Ando gostando das metáforas... Na verdade sempre gostei das metáforas!!

Ainda estamos no barco, então.
Nossa nau aportou em uma ilha.
- Isso significaria que o marinheiro bêbado do escrito anterior desatou o nó?!
Ainda não tenho elementos que confirmem essa esperança. Mas não desanimemos. Não.

Era a hora do ocaso. O céu estava laranja.
Devo dizer que essa é a hora do dia preferida da tripulação de um da nau que acompanhamos aqui. A hora em que o sol está se pondo e o céu fica laranja. Isso só acontece no outono.
Mas na tarde específica em que aportei na ilha, chovia na tarde laranja. Chovia demasiadamente para um dia de sol - coisa que só acontece em países tropicais.

A ilha?
A ilha é pequena. É quase pequena demais...
Chove só na ilha. O resto do céu é laranja e o sol está se pondo...

E se vc chegou até aqui e se inquietou um pouco e se perguntou impaciente: "Ok, já entendi. Mas onde é que vc está indo com essa metáfora?!! O que é que vc quer dizer com tudo isso?!! Céu laranja, pôr do sol, ilha, chuva?!!

Admito: a lugar algum.
A ilha é demasiado pequena!
Não é possível ir a lugar algum.

O sol está se pondo, o céu está laranja lindo, mas chove.
Parece que ainda estamos esperando algo passar.
Mudou-se o porto, mas não tanto as expectativas...
A vida segue.

As paixões são como ventanias que inflam as velas dos navios,
fazendo-os navegar,
outras vezes podem fazê-los naufragar,
mas se não fossem elas, 
não haveria viagens,
nem aventuras ,
nem novas descobertas."
Voltaire.


Arrivederci.

Tuesday, May 10, 2011

O nó

Ainda embarcados nessa nau, aproveito para falar do nó.

Estou vivendo um momento nó.
Tenho agora essa nítida sensação de que minha vida deu um nó terrível.
Nó de marinheiro?...

Uma vez vi um nó de marinheiro, um, dos tantos que eles sabem fazer.
E algo me intrigou naquele específico nó.
Era o fato de que ele parecia estar frouxo e poder ser facilmente desfeito, bastava levantar ele daquele pino de metal e ele não seria nada além de uma corda inerte.
Mas ali, do modo como estava enlaçado ao pino, por mais que parecesse frouxo, inofensivo, mesmo um pouco incompetente, aquele nó não se desfazia, e pior, quanto mais se puxava, mais forte ele se tornava!
O barco estava seguro enquanto aquele nó estivesse no pino de ferro...
Era o modo, a relação entre o nó e pino que fazia dele um nó especial.
O mar balançava o barco e o remexia e tentava levá-lo dali, mas aquele nó o segurava firme, o trazia de volta para perto do cais, exercendo com primor a função para a qual fora designado.
Era um nó muito curioso para mim... Tanto, que nunca o esqueci.

...Espero não ser esse o nó que ata o meu momento.
Caso seja, espero que haja uma mão capaz de desfazê-lo...

É muito simples desfazer o nó, é só tirar ele do pino, pronto, ele se desfaz em corda desenlaçada.
Mas o fato é que, para tal, é necessário ser algo, um ser, fora do nó.
Não ser corda, nem pino, nem barco, nem cais...
É preciso ser o marinheiro (ou a criança travessa que brinca no cais de soltar barcos só pra ver o que acontece... Ou gato, que brinca com cordas só pelo prazer que isso lhe dá - mas aí há um tremendo perigo: acabar todo enrolado na corda...)...

Da onde estranho as coisas agora, minha vida é a corda que deu o nó. Eu acho que sou o pino, mas, às vezes, acho que posso ser barco...
Tenho a quase convicção de que não sou o marinheiro (nem a criança, nem o gato)...
Mas se assim o fosse, me pergunto: então quem teria dado o nó?

Talvez eu seja o marinheiro...
E esse escrito é o delírio da embriaguez de ontem que me largou no chão do cais de onde vejo de viés e bem de perto o nó que fiz, e onde um gato me lambe o rosto e uma criança me roubou o quepe caido e saiu correndo...

Quem sabe, assim que o sol se levantar e se fizer forte e me esquentar o corpo e o rosto acendendo o pavio da minha ressaca, eu possa me levantar, vomitar, pegar meu quepe largado em algum canto pela criança travessa, desatar o nó, entrar em meu barco e seguir o rumo que intentava seguir antes da embriaguez...

Embriaguez ou nó?!....
Não importa... O momento não precisa, necessariamente, de um nome, ou de uma metáfora...

Nó, se desfaz com paciência...
Embriaguez, passa...
Momentos...

O importante é conseguir voltar os olhos pro horizonte, onde o infinito se mostra como possibilidade.

"Aguardo, equânime, o que não conheço - 
Meu futuro é o de tudo
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada."
Ricardo Reis
Arrivederci.

Monday, May 2, 2011

Entre a contigência e o plano se navega...

E "navegar é preciso" (...)
Há algo bom na metáfora do navegar que enche o coração,
especialmente um crescido à beira do mar...

Quando se está lá, no mar, nenhum continente te pertence e todos te são possíveis...
A questão é sempre a mesma, do querer.
Para onde se quer ir, onde se quer chegar.
E, mais importante que esses dois vetores:
O que eu faço com o meu querer?

...Eu quero o impossível.
Eu quero o que não existe, o que não é, o que não está.
Talvez essa seja a minha neurose. Mas a mantenho: Quero o impossível.

O impossível é só agora, é só o momento, é só o limite do alcance dos olhos.
O impossível não é da alma, não é do espírito, não é de Deus - "Para Deus não há impossíveis."

O impossível é só uma angustiazinha imediata. O impossível é um rótulo. É uma piada.
É um ato covarde. É uma escolha pessimista.
Uma alma qualquer, pode, a qualquer momento, quebrar o encantamento do impossível,
basta vislumbrar uma riqueza qualquer na contigência e caminhar em direção a ela.

Eu quero o impossível!
E vou tê-lo.

Existem guerras e guerras. E para todas elas, uma escolha precedente.
Qual é a guerra que vale à pena?!?

A minha resposta é só uma - A mesma de Jesus (eu acho...):
Aquela que se luta por amor.

O Amor é o que realmente importa, é o que resta, é o que sobrevive às gerações,
é o unico tesouro real que podemos deixar para quem vem depois.

E quando falo de amor, falo do AMOR,
aquele raro, quase extinto, marginal, mal interpretato, falsificado e pirateado em todos os cantos,
mas que existe e é a atitude de um coração disposto a perdoar sempre e denovo, e sempre e denovo e denovo...

O Amor da carta aos Coríntios, que não ressente o mal,
não procura seus próprios interesses,
que não imputa maldade,
que não se envaidece,
que tudo espera, que tudo crê, que tudo suporta.
Aquele que jamais acaba.

O Amor que quero ter, viver, passar...
E ensinar aos meus filhos.

O Amor que soa a impossível,
mas que é a simples atitude de vontade de um coração puro e de um espirito inabalável.

E que, pra mim, é a vela da nau que sou,
Que navega com divina precisão,
Segue a cartografia de um plano e me mostra só contigências.

(...)"viver não é preciso".


"Não sabendo que era impossível, foi lá e fez." 
                                       - Jean Cocteau


Arrivederci.

Monday, April 25, 2011

32

"Quanto mais envelheço e mais me abandono à vontade de Deus, menos aprecio a inteligência que quer saber e a vontade que quer fazer: e reconheço como único elemento de salvação a fé, que sabe esperar pacientemente sem interrogar demasiado." (Umberto Eco - 'O Nome da Rosa').


Hoje ando com vontade de falar de mim através de outros, de usar frases e poesias e dizeres que, expressem com exatidão o humor do meu espírito, ainda que nascidas em contextos e seres tão diversos e extemporâneos.

Mas o que isso diria de mim agora?
O que significaria me apropriar de palavras alheias para falar de mim hoje??
Porque o outro me descreveria melhor do que eu mesmo nesse momento tão particular e intimo?!
Porque a fuga?
O esconder-se?
O excusar-se?

Cheguei em um novo ano e estou sem palavras.
Estou tão estrangeira nele quanto em todos os outros antes dele.
Estou tão desconfortável nessa nova casa quanto criança pequena em visita a parente nunca visto que mora longe...

...Mas bastarão alguns momentos... Basta um pouco de confiança... Um sorriso, um doce ou pirulito e,
lá está ela: rock'n rolling all over the place!!!

Será?...
As perspectivas são promissoras (são sempre para nós os otimistas...).
Nunca fui criança de recusar confiança alheia, e nem de me intimidar diante do desconhecido.
Rock'n Roll life!!! Ainda e sempre.

Afinal:  Há tanto a se fazer, 'lugares a visitar, amigos a conhecer'.... A vida urge.

"Pedras que rolam não criam limo"!!

E, assim, sem conseguir escapar às palavras alheias em proveito intimo, pergunto-me em um ton blues à la Bob Dylan:
 - But,
"How does it feel
To be on your own
with no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?"


A responder em um futuro próximo qualquer...

Arrivederci.


Monday, April 11, 2011

"(...) E a esperança não desaponta"

Quero trazer a memória aquilo que me dá esperança. Essa não é uma frase minha, é de Jeremias, e ele a escreveu em meio às suas lamentações.
Hoje me senti particularmente lamentosa e me lembrei desse conselho.
Não foi difícil trazer a memória algo que me inflasse esperança,
mas foi trabalhoso manter fora dela insights derrotistas.
Nossa mente é um campo de batalhas - Alguém já disse isso por aí...
Ou seria a nossa alma?...
- Para alguns não há real diferença entre uma coisa e outra, mente e alma...

Tive um professor, uma vez, que defendeu a idéia de que, na verdade, a mente estaria num 'entre'...
Nem em mim totalmente e nem no outro, mas em algum lugar no meio desse caminho.

(E isso me faz lembrar Mario de Sá Carneiro:
"Eu não sou eu nem sou o outro
sou qualquer coisa de intermédio                                                
pilar da ponte de tédio                                                                     
que vai de mim para o outro" )

Talvez, ele tenha razão.
(Talvez, ambos tenham).

Enquanto estranho a sasonal melancolia que chegou, dessa vez, aliada a fatores estressantes externos,
me empenho em vencer essa pequena batalha mnésica.
Que as coisas que trazem esperança prevaleçam!
Afinal, acredito no titulo desse post.

Arrivederci.

Sunday, April 3, 2011

"A memória é uma ilha de edição" ... Ainda.

As conversas de bar têm andado muito a la réminiscenses.
Passados perdidos, pessoais, desconexos, são os novos companheiros de cerveja que chegam e vão como os garçons, deixam ou tiram algo e seguem seu curso rotineiro.
É bom ser estrangeira no passado dos outros, olhá-los como a belos quadros em eminentes museus...
É estranho se dar conta que pessoas lembram de detalhes que você não lembra, de eventos e situações compartilhadas. E vice-versa. É, ainda mais, perceber que pessoas que te acompanham a longa data tem passados totalmente alheios, dos quais você nunca participou.

É engraçado perceber como certas coisas ligam mesmo quando alteridade, fazem link, despertam em você algo de inominável, porém belo.
Algo que vem do fundo...

E Fernando Pessoa diria:
"Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo."

Eu fico com a suposição de qualquer semelhança, sempre!
Mas, também com o abismo intransponível, com o alheio universo, com a falta que também existe e ocupa lugar no espaço.

... E assim, fico, com a disposição para o futuro, que é o encaixe dessa falta.

"Dispõe-te, Agora!"

Arrivederci.

Monday, March 28, 2011

Destemidos...

Esse fim de semana, num bate-papo de bar, descobri, junto a um amigo, que ambos fomos crianças com corações destemidos.
Eu já sabia isso de mim, mas foi divertido encontrar alguém com quem me identificar tão retroativamente... Crianças com um Brave Heart...
Engraçado isso de termos escolhido a mesma palavra para descrever-nos: 'Destemidos'.

Rememorando experiências, encontrei em minha mente uma imagem.
A imagem de uma foto minha de quando havia entre 2 e 3 anos.
E, estranhamente, em  quase contradição (quase, porque na verdade, não acho que haja, realmente, nenhuma contradição plausível...) com o post anterior, tive a sensação de estar me encontrando com uma essência de mim mesma....


Algo de mim que perdurou como um núcleo rígido e imutável? Ou algo que, então, lá atrás, seria o ícone do que sou hoje?...

"A memória é uma ilha de edição".

Não tenho uma resposta para essas perguntas.
Mas eu, hoje, escolheria, na verdade, escolho, aquela foto como a melhor representação da minha alma.
... Como um retrato mais fiel do que julgo ser minha essência atual.


Arrivederci.


CARTA ABERTA A JOHN ASHBERY

A memória é uma ilha de edição – um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.

Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser
levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?

WALY SALOMÃO
(Livro “Algaravias”)



Monday, March 21, 2011

Metamorfose...

Esse fim de semana vi "Black Swan", o filme.
Adorei.
O estranhamento, no entanto, veio como uma confirmação conhecida, mas forasteira ao nível do sentimento...
A metamorfose exige uma morte.
Uma qualquer morte, total ou, às vezes, parcial. Mas sempre morte.
A borboleta de hoje, matou a lagarta de ontem.
E a Mangueira que hoje vejo da minha janela, é a lápide de uma manga que um dia enterrei no jardim.
Parece mórbido, mas é só vida.
O filme fala disso de um jeito belo e dramático - visceral!
Como requer o humano, talvez...
Um pouco de morte, não só é necessário como, às vezes, faz bem... Ao menos quando buscamos um para além de nós mesmos... Uma metamorfose... Uma transcendência.

..E estranhamente me acho novamente aqui, de frente pro rio ...

 - Quantas Mairas já morreram para que hoje eu seja essa Maira que sou? ...?...

... a everlasting work in progress.


Arrivederci.

Tuesday, March 15, 2011

"Há um lugar para ser feliz, além de Abril em Paris...

...Outono, no Rio."

Hoje cantarolando essa velha canção, que conheço na voz de Ed Motta, me dei conta de uma obviedade que não havia percebido (e fui estrangeira na canção!...), até então:
Outono no Rio também é Abril.

Então, que venha Abril!



Arrivederci.

Thursday, March 10, 2011

Exile Vs. Hope

These days I feel like I'm  in a exile.


Forced to be apart from some one I love. 
...Deeply.


The weird thing about this whole situation is: the one who exiled me is the same one I miss so  intensely.
And more, is the one I hope wondrously to see soon!! 
He is the land I'm apart and want so desperately to go back to.


The history of my country is full of people who lived this same , but real, situation.
When they were sent off Brazil and forced to live elsewhere, in foreign countries, forbidden to come back because of political issues around '64 and '85...


I'm here though! 
I just came back.
I wasn't in a exile. 
But now I am.
Inside my country, my own life...
I'm being forced to live out of a love, a particular, 
little important love, that is the one I thought I was coming back for. 


Was I mistaken?!


The other weird thing about this is: No, I wasn't!!


I wasn't, and I am not mistaken!
I came back for this love, and I came back for a purpose.
In fact, to fulfill it.


But a purpose involves many layers...


There is a whole one I wasn't paying any attention to: The Spirit Building Issue 
(That's how I named it).
When your headsman, your indictee, your banisher,  
is the same as your victim, your host, your promise land,
you have to be extra prepared to deal with it.


I'm not.


So I have to build my Spirit in order to be ready to just love the one I love 
when the time for do it so arrives.
It has to be a clean and pure love, 
free of all the resentments or offenses or pain 
that the present situation put over our shoulders.
It hurts.
But it can't hurt forever.


Build a Spirit is a very precise and delicate work, 
it can not be mistaken for a soul-making!!
Soul-make is a hole different process, 
cheap and shallow that we can do every day in every given situation that bring us a little peace, 
happiness, joy... 
We make soul with little passions, little pleasures... little life.


We build Spirit with a lot of effort, 
hard work of deep introspection, 
with awareness of who we are, with some pain, 
but great gain! 
... We build Spirit with God!
(- Only!)


When we built our Spirit we get boldness of being. 
And the good thing about it is: a strong Spirit bares a restful soul.


I'm Building Spirit right now... 


With great hope that when the time comes, 
I can finally go back to my land, my promisse - my love -
and be nothing but it. 


Nothing but sincere, clean and pure LOVE.


... Hope does not disapoint!


"There is an appointed time for everything. And there is a time for every event under the heavens"
(Ec 3:1)

Monday, March 7, 2011

É Carnaval...

Hoje está particularmente desanimador escrever... Estou estrangeira no carnaval. Estrangeira em minha própria cidade, estrangeira entre meus iguais, estrangeira, acho, dentro.

É possível estar estrangeira por dentro?!
... Deve ser, pois assim o é hoje, agora, nesse momento.

No Sábado um vizinho, diante da intensa chuva que caia e da falência de seu churrasco carnavalesco, gritava aos 4 cantos e aos seus convidados em tom jocoso irônico de quem desabafa diante de uma inesperada frustração: "É Carnaval!! É isso aí!! O Carnaval chegou!! Uhuu!! É o Carnaval!!"  ... E a chuva caia e insistia!

Hoje me solidarizo.

Arrivederci!


Monday, February 28, 2011

O rio não é mais o mesmo, o homem não é mais o mesmo...

Esse sábado foi um dia onde me senti especialmente estrangeira no momento. Me senti estrangeira diante da minha própria vida, como se esta fosse aquele rio do qual falava Heráclito em sua famosa frase...

O estranhamento veio exatamente do encontro tão real com esse sentimento, que há algum tempo vem me rodeando como um cão carente e sem dono, de que "um homem não pode entrar no mesmo rio duas vezes, pois ao fazê-lo pela segunda vez, o rio já não será mais o mesmo e o homem já não será mais o mesmo"...

Eu sou o homem que não é mais o mesmo de frente para um Rio que não é mais o mesmo - e nos reconhecemos nessa estranheza e nos encaramos com o respeito de quem se reconhece no momento do outro - no entanto, tudo a olho nu é essa aparência de similitude, de imutabilidade diante de si mesmo...
Não fosse essa certeza pungente, pesada, desconcertantemente real, de que esse rio não é mais o mesmo... E de que eu não sou mais a mesma...

E eis-me aqui bem diante dele a olhá-lo. Com profundo estranhamento ao ver o que me é tão familiar...

Porém, coexistindo com a desconfiança que traz o estranhamento existe a esperança de que, em sendo tudo novo de novo, a aventura e as alegrias desse segundo encontro sejam muito mais enriquecedoras, regozijantes e surpreendentes que as do primeiro...

...Toda vez que dou um passo na direção do rio, ele dá um passo na minha direção.
Por enquanto estou me permitindo ficar no estranhamento, e prossigo com baby steps!

Passos de bebê, firmes e seguros, todavia, passos de bebê.

Arrivederci,

Monday, February 21, 2011

Estudar!!

Esses dias ando estudando muito.
E eu até gosto bastante de estudar... Uma vez atingido um determinado ritmo, flui com algum deleite inclusive...

O estranhamento vem da resistência dantesca com a qual me encontro todo dia antes de começar!!
Que gigante é esse e de onde vem?!!

Eu quero estudar, eu tenho que estudar, eu me preparo para estudar... Mas antes de começar tenho que matar um gigante em mim a cada manhã!! Aaaahhhh!!!

E o curioso é que esse gigante é feito de inúmeras pequenas coisinhas e detalhes que vão se colocando sorrateiramente juntas, lado a lado, bem na sua frente e quando vc se dá conta, ei-lo!! O Craken está bem aí, emergindo da água bem diante dos seus olhos!!

Mas como Perseu me ensinou: pega a cabeça da medusa, petrifica tudo.
...Senta e estuda!!

Monday, February 14, 2011

Valentine's day!

Acho que todo mundo sabe a historia do tal padre Valentino que casava as pessoas escondidas na idade média porque era contra o decreto de um tal Rei que proibia os jovens de se casarem, pois queria-os todos em sua guerra ...
Enfim, tô contando a história muito de má vontade, eu sei. Não é porque não goste dela, adoro, na verdade! Mas é porque, realmente acho que todo mundo já tá cansado de saber...
Então, o St. Valentine foi torturado e morto por causa disso, no dia 14 de fevereiro, e assim, temos hoje o Valentine's day, que é o dia dos namorados em grande parte do mundo... Na verdade, é o dia dos apaixonados...

Dos apaixonados que queriam casar.

Porque apaixonados querem casar!...

...O estranhamento me vem de ouvir tanto por aí que o casamento blá blá blá... Ninguém deveria querer, é uma bobeira, é uma instituição falida... yada yada yada... Não retrata o amor, não tem nada haver uma coisa com a outra...

Pode até ser...
Mas minha anima duvida disso, e desconfio que a história também...
Eu não gosto de pensar que a regulamentação do ato do casamento veio só, e somente só, por interesses burgueses que envolviam o patrimônio... Isso, também aconteceu.

Mas, sinceramente, as pessoas sempre se casaram, mesmo sem patrimônio, mesmo sem lei que regulasse, mesmo sem estado...

Pode até ser um argumento esse de, 'então pra que lei, se o que vale mesmo e o que sempre valeu é a intenção do coração?!!'...

Bom, minha resposta é bem pragmática e pouco romântica, acho: Porque agente vive num Estado democrático, laico, de direito.

E dentro dessa realidade, casar de verdade é prova de amor! A maior que nos permitem dentro do Estado! Transformar o amor em ato legal...
Acho que é a forma de dizer no social que seu amor é real.

Quem ama casa!

E isso é tão simples e tão anexado ao amor, que mesmo com toda a rebeldia dos contra o casamento formal, inúmeras leis são criadas para garantir os direitos dos que vivem juntos... E agora agente tem um monte de outros nomes, pra um monte de outros papeis, que dizem a mesma coisa: Que vc ama aquela pessoa e que vcs estão juntos...

... E que quando vc faltar como parte desse amor ela ainda terá algo dele...  Nem que seja algo material...


Fazendo um paralelo bruto:
Se por odiarmos enterros acabássemos com os funerais e cemitérios, jamais extinguiríamos a morte (e muito menos os corpos!).
E essa jamais teria sido a nossa pretensão inicial, pois sabemos que é impossível acabar com a morte...
Então?...
??...

"O amor é tão forte quanto a morte", e  os rituais do amor vão sempre existir, ou serem exigidos, assim como, os rituais da morte, sejam eles quais forem e que nome tenham...

Quem ama de verdade, casa de verdade.

Quem tem medo da morte, nem por isso vai deixar de morrer...


Think about it!!

Happy Valentine's day!
Be in love and live it!!!

Tuesday, February 8, 2011

"A vida passa, mas fica na mente"...

Em uma dessas manhãs passadas na qual acordei cedo como tenho feito costumeiramente desde o retorno, estava sentada ao sol com minha vó  enquanto ela comia amoras pegas no pé (sim, minha casa tem, também, um pé de amoras...), então minha vó me disse em meio às reminiscências de sua vida:
- "É... Marizinha, a vida passa, mas fica na mente.."

E essa frase encontrou um lugar de ancoramento imediato em meu coração. Tanto pela doçura como foi dita quanto pelo peso de 'verdade ultima' que assumiu para nós duas naquele momento compartilhado ao sol...

E o estranhamento veio leve no devaneio de um futuro passado no futuro...
O que terá ficado na minha mente quando eu estiver com noventa anos sentada under the sun ao lado da minha neta no jardim?

E o que ocupa esse espaço agora?...
O que será feito dessas pequenas aflições cotidianas, anseios, felicidades, momentos?...

Olhando sinceramente para o 'até agora', percebi algo quase maravilhoso demais pra ser verdade (será que é?!). Que de momentos alegres sempre restam, uma gargalhada ou um sorriso solitário, um espremer de olhos e um olhar para o infinito...
Dos momentos tristes resta só um discurso, vazio e estranhamente organizado com mais faltas do que se esperava ao começar o discurso.... Por maior que tenha sido o momento e ainda que vívido ou muito nítido.... Um discurso sóbrio... e destacado.

...Espero que até os noventa o empírico da vida me prove certa.
Ao menos pra mim, até agora tem sido assim.

Good!!
Good.

... Or God.

Tuesday, February 1, 2011

Casa nova...

Isso de ser estrangeira requer com que nos mudemos com frequência...

Eu voltei e mudei. Estou com a esperança de que este novo lugar neste novo momento onde continuo sempre estrangeira, seja mais acolhedor que lugares e momentos passados...

Ando com a esperança de que haja em mim maior motivação para o estranhamento cotidiano...

Bom, hoje comecei. Se conseguir criar uma disciplina, espalho o boato de que o Estrangeira está de volta.
Se não,
... tans pis!
O que vale é nunca desistir de tentar...
Here we go again!